É quando a espertina bate forte que tenho oportunidade de apreciar o talento ronqueiro do meu vizinho do lado. É como ouvir pedras rolantes apenas pelo subwoofer. Pus-me a pensar nas consequências disso a longo prazo na estrutura do edifício e na minha saúde. Penso que reverberação provocada pelo ressonar deste talentoso vizinho não trará no futuro problemas estruturais ao edifício, a não ser que ele se babe muito - não se deve subestimar o poder destrutivo duma infiltração. Mas, em relação à saúde, é diferente. Lembro-me bem das minhas colegas de Engenharia do Ambiente estudarem os malefícios das baixas frequências nas nossas habitações e consequente potenciamento no desenvolvimento de cancros. Com a destruição progressiva do Sistema Nacional de Saúde e do nosso poder de compra é algo a ter ainda mais em atenção. Logo, preocupa-me.
O interesse pelo talento vocal do meu vizinho fez-me levantar da cama, e com a ajuda da guitarra, determinei que ele inspira num sofredor Fá sustenido e espira em Fá arrastando-se até encontrar a paz num Lá sustenido - ele gosta de notas com acidentes! Outra idiossincrasia dele é que repete à exaustão a mesma frase melódica, salvo esporádicos improvisos. A distância entre o fá sustenido da inspiração e o fá da aspiração perfazia um intervalo de sétima maior e, portanto, se tocadas as duas notas ao mesmo tempo, realizar-se-ia um acorde com som dissonante. Um acorde dissonante caracteriza-se por provocar uma sensação de desconforto, de tenção, consequência da colisão de notas não totalmente compatíveis. Admito que pudesse ser já alguma paranóia provocada pela privação de sono, mas comecei a ficar angustiado ao imaginar que se, por acaso, desse na cabeça deste meu vizinho ronqueiro fazer um acorde, isto é, inspirar e aspirar ao mesmo tempo, ele poderia provocar sérios estragos, não só estruturais no edifício e na minha saúde, como danificar-se seriamente a ele próprio. Além da baba, jamais se deve subestimar o contacto directo com acordes dissonantes. Contudo, seria um toque muito Jazz.
Esperando em vão que o meu vizinho optasse por conceitos melódicos mais adequados para me embalar até ao sono, foquei de seguida a minha atenção no arrastamento do fá até ao lá sustenido que ocorria em cada aspiração. Estamos aqui na presença dum virtuoso! Ocorre contudo aqui uma questão: será este deslizar duma nota até à outra consequência dum portentoso aparelho vocal e respiratório do dorminhoco, ou o meu vizinho enquanto curte o seu REM está em movimento? Se ele estiver em movimento, estamos então na presença do conhecido Efeito de Doppler.
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quarta-feira, 28 de março de 2012
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012
O «Correio da Manhã» na «Luta de Classes»
Fazem por nos convencer que a Luta de Classes não existe. Mas são os próprios média dos grandes grupos económicos que acabam por mostrar exactamente o contrário.
O Correio da Manhã online tem uma rubrica que consiste em ter um jornalista (estagiário, presumo) a entrevistar populares na rua. A frequência com que as peças jornalísticas vão contra as lutas dos trabalhadores é demasiado grande para se pensar ser obra do acaso.
Hoje, a "imparcialidade jornalística" exemplificou-se falando assim:
«Fomos à rua perguntar aos portugueses se não consideram uma falta de respeito por parte dos sindicatos a realização de uma greve, precisamente um dia depois do aumento dos preços dos transportes.» (podem ver aqui)
Para finalizar, dois pontos importantes:
- A imparcialidade é um mito.
- A manipulação é demasiado óbvia para continuarmos a dar valor à imprensa dos grandes grupos económicos. Devemos informar-nos também pela imprensa popular.
da série:
Jazz
sábado, 31 de dezembro de 2011
O Eclipse do Sol
A Matemática é uma coisa que dava jeito. Sei que ela era útil para calcular áreas, percentagens, relações entre quantidades, e outras excentricidades da sociedade moderna. Sim, ela era útil! A matemática era útil antes de o jornal Sol a ter abolido. Eu explico.
Esse jornal noticiou que «Greves tiram 8 milhões de euros de receita à CP este ano». À primeira vista pensei que era uma daquelas notícias para tentar colocar a população contra os grevistas e evitar que estejam contra governos ou administrações da CP. Mas, na verdade, o que o Sol queria era eclipsar a Matemática e subtilmente esqueceu-se de disponibilizar dados obviamente pertinentes que dariam significado aos 8 milhões referidos. Bastaria, no mínimo, terem acrescentado que a dívida da CP é de 3300 milhões de euros.
Mas, com o dado que nos é disponibilizado, apenas daria para calcular a área caso a CP fosse um quadrado, logo, se fosse o caso, a área da empresa seria de 8 milhões vezes 8 milhões, igual 64 milhões de euros quadrados de área. Para percentagens e relações entre quantidades já seria preciso mais dados, e caso tivessem disponibilizado somente o dado sobre dívida total da CP poderíamos então concluir, por exemplo, que... vejamos:
- com uma simples regra três simples podemos concluir que as greves afinal apenas representam 0,24% da dívida da CP; [link]
- dividindo os 3300 por 8 milhões poderíamos ficar a saber que dívida da CP equivale a mais de 412.5 anos de greves como as de 2011 - mais de quatro séculos!
O grave nisto não é a ocultação de informação que impossibilita tirarmos conclusões importantes. O grave disto não é a inocente tentativa de manipulação para nos virar contra os trabalhadores da CP. O grave disto é que estudei mais de uma dezena de anos Matemática para nada. Ela foi vítima do eclipse do Sol. Haja Jazz:
da série:
Jazz
domingo, 25 de dezembro de 2011
Sinal de Alarme
Dei com um artigo no Público sobre um rapaz que deixa diariamente uma flor na última carruagem do metro. Junto, deixa num papel uma mensagem de. . . coiso.
O objectivo é “obrigar as pessoas a parar”, diz ele. Parar e perguntarem-se “O que ando aqui a fazer?”. “Só se pensa nisto quando ficamos doentes ou morre alguém. Hoje, as pessoas estão a ficar completamente soterradas”. E falar do. . . coiso “também assusta muito”, acrescenta.
Vejamos: as pessoas são logo entrada do metro domesticadas no ritmo pelos torniquetes, depois enquanto olham para as estações que faltam até ao destino o abrir e fechar das portas serve como segundo regulador do tempo, tudo com a preocupação inconsciente de não falhar com a ditadura das horas. Adormecidos por um padrão repetido diariamente, sempre igual, uma flor é o imprevisto que serve como despertador. Acordar (quando já estaríamos acordados) é um incómodo que torna a acção do rapaz da flor um acto potencialmente subversivo.
Escrever amor, e largar o coiso, é capaz de ser também subversivo - penso eu agora que parei para escrever. Quatro parágrafos! E, é assim, com este post que pela primeira vez do blogue se faz Jazz. Não é coiso que se diz, é amor. E o amor é Jazz.
O objectivo é “obrigar as pessoas a parar”, diz ele. Parar e perguntarem-se “O que ando aqui a fazer?”. “Só se pensa nisto quando ficamos doentes ou morre alguém. Hoje, as pessoas estão a ficar completamente soterradas”. E falar do. . . coiso “também assusta muito”, acrescenta.
Vejamos: as pessoas são logo entrada do metro domesticadas no ritmo pelos torniquetes, depois enquanto olham para as estações que faltam até ao destino o abrir e fechar das portas serve como segundo regulador do tempo, tudo com a preocupação inconsciente de não falhar com a ditadura das horas. Adormecidos por um padrão repetido diariamente, sempre igual, uma flor é o imprevisto que serve como despertador. Acordar (quando já estaríamos acordados) é um incómodo que torna a acção do rapaz da flor um acto potencialmente subversivo.
Escrever amor, e largar o coiso, é capaz de ser também subversivo - penso eu agora que parei para escrever. Quatro parágrafos! E, é assim, com este post que pela primeira vez do blogue se faz Jazz. Não é coiso que se diz, é amor. E o amor é Jazz.
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