sábado, 9 de junho de 2012

sexta-feira, 8 de junho de 2012

«Portugal» não é Portugal

As palavras produzem efeitos, sensações. Com elas se manipula o receptor da mensagem para o bem e para o mal. Isso faz-se consciente ou inconscientemente. Por isso, cuidado com a televisão.

Em vez de «Portugal» devia antes dizer-se «selecção portuguesa» ou «selecção de Portugal». Parece ser a mesma coisa, mas não é.

Nós, portugueses, somos constantemente bombardeados com estímulos audiovisuais que tentam promover em nós uma afinidade com a "nossa selecção" e com as marcas comerciais a ela ligada. É tudo negócio; e, ilusão. A selecção nem sequer é nossa!, e Portugal pouco ou nada ganha com os resultados da selecção nacional de futebol. Mas se isto pode ser discutível - será? -, uma coisa é certa: «Portugal» não é Portugal.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

o velho capitão


Não vou descrever o momento. Isso seria para os poetas. Com Mário Wilson, aquilo que no fundo, às vezes tão lá no fundo, liga as pessoas entre si, fica claro, e à vista. A amabilidade com que recebe, e se oferece ao próximo é indescritível.

Foi com essa poesia que no fundo - não há poeta que descreva tão fundo -, que hoje, e sempre, o amigo Sr. Wilson confraternizou com os meus pais. Não lembrava que era assim, mas as recordações que tenho dele, com eles, revelam-me que sempre assim foi. Uma tremenda amabilidade. Uma qualidade dos grandes Homens.

Cumprimentou-me - se é que esse é o termo. Enfim, segurou-me a mão com ambas as mãos - se é que essas são as palavras. Nada falamos - mas só eu é que nada disse. Mais tarde, brincou, «Quem é este gigante que aqui está?!»... De momento, tenho nas mãos a sua biografia e vem com uma dedicatória dirigida a mim! Diz no final que para o ano vamos ser campeões! - ao que traduzo para um: para o ano vais ser como eu. Mas, ele, acho eu, pensa honestamente que só há campeões quando o são como colectivo. Procurou dizer por palavras aquilo que sabe dizer sem elas, porque no fundo, tão lá fundo, não há palavras. Só é descritível sem elas, onde o velho capitão é poeta.

domingo, 27 de maio de 2012

Sankt Pauli


Na sexta-feira, esperava numa estação da linha de Cascais por um comboio, quando um senhor sentou-se ao meu lado. Fiquei espantado por ele trazer vestido uma t-shirt preta do St Pauli. Se nunca ouviste falar, o St. Pauli é um clube desportivo muito sui generis de Hamburgo...

Ontem, sábado, após ter participado na manifestação do PCP contra o «pacto de agressão» que é a Troika, vinha com uns amigos quando nos cruzamos com um outro senhor com uma t-shirt preta igual. Quem ia comigo comentou: Viste? Aquele trazia uma camisa do St. Pauli! Sim - respondi -, contei-lhe que era a segunda t-shirt que via em menos de 24 horas e falei-lhe então do acontecimento do dia anterior. Ele achou curioso e surpreendente encontrar-se tantas referencias ao St. Pauli, afinal, não se trata de um clube português e a sua equipa de futebol joga na segunda divisão alemã.

Mas, o mais surpreendente ocorreu depois. Assim que acabamos de falar acerca do tal homem que na estação de comboio trazia vestido a t-shirt, nem dez segundos passados, e esse mesmo senhor passa no passeio ao nosso lado!! E, o mais fantástico, levava ainda consigo a sua t-shirt do St. Pauli!!! Há com cada coincidência!

(e é com este glorioso momento que introduzo o blog do St. Pauli Portugal na barra lateral)

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Seria uma faxina fascinante

Foi fascinante o que ela me disse. Disse ela que aprendeu num workshop de comunicação e voz que a maioria das pessoas não sabe dizer fascinante. Dizem antes faxinante. Por exemplo, ao invés de falarem:

Era fascinante que se destituísse Miguel Relvas de ministro da República Portuguesa;

A maioria pronunciará,

Era faxinante que se destituísse Miguel Relvas de ministro da República Portuguesa.

Fiquei feliz ao saber que já antes dizia fascinante e não faxinante. É importante cuidar da fonética. Não iremos nós, inadvertidamente, ter a inteligência e a decência de promover uma valente faxina nas mais altas instituições políticas da República. Assim, só para começar, fazer a faxina ao governo.

Porque as palavras são armas, é preciso cuidar da fonética, da oralidade, sobretudo quando se tem empregos em que a comunicação oral pode ser fundamental, exemplo, jornalista. Todo o cuidado é necessário, não vá a fonética tornar a faxina mais que mera limpeza de aparências, e limpe de vez os ministros fascistas, perdão, os ministros fascinantes que temos.

sábado, 19 de maio de 2012

A Brief History of John Baldessari

via Ferrust (incluído na barra lateral)

domingo, 13 de maio de 2012

A Peste, Albert Camus

«Por uma bela manhã de Maio, uma esbelta amazona, montada numa sumptuosa égua alazã, percorria as áleas cheias de flores do Bosque de Bolonha.»

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Patologia do Vazio, diz ele

Olá, é com um sofrível prazer que escrevo pela primeira vez aqui.

O autor deste blogue encontra-se num dilema de fácil resolução que adia solucionar. A contradição em que se colocou resulta da sua vontade em escrever palavras vãs, néscias, que provavelmente faça o leitor perder o seu tempo, e por outro lado, a sua moral que o impele a escrever parágrafos que promovam algum tipo de reflexão sobre o mundo, e nos raros dias de optimismo, inclusivamente, a transformar infinitesimamente esse mundo. Não se decide.

Penso eu, que sou o narrador deste blog, que perante este bloqueio em que a decisão se vai transformando numa crise de proporções absurdas, me vejo na necessidade de aparecer, e inaugurar aqui a minha escrita. Com este inútil texto na perspectiva do leitor, simplesmente, desbloqueio o dilema. Para gozo pessoal, roubo a resolução da contradição ao autor do blog e transformo-me eu no revolucionário: a partir de hoje escrever-se-á conteúdo néscio.

Duvido, porém, que consiga convencer o autor deste blogue de que revolucionário e conteúdo néscio sejam palavras que possam conviver pacificamente na mesma frase, mas acredito que o alívio que o autor deste blog sentirá ao ter eu decidido por ele, irá fazê-lo conformar-se perante a incoerência. Espero não estar a sobrestimar os vícios e feitio de pequeno-burguês do autor deste blog. Refiro-me, neste caso, sobretudo ao conformismo e apatia dele. É que, como narrador, não gostaria de entrar em conflito com o autor de séries como «Rumo ao Fascismo» e «O executivo do Estado moderno...», publicado ao longo do curto tempo de vida do blog.

Caro leitor, sinceramente, é-me isto tudo indiferente. Mas acho que autor deste blogue irá perder o juízo.

Cumprimentos,
o Narrador.

domingo, 6 de maio de 2012

A Crise... ou A Peste, de Camus?

A intenção do narrador não é, entretanto, dar a essas equipes sanitárias mais importância do que elas realmente tiveram. No seu lugar, é verdade que muitos de nossos concidadãos cederiam hoje à tentação de lhes exagerar o papel. Mas o narrador está antes tentado a acreditar que, ao dar demasiada importância às belas ações, se presta finalmente uma homenagem indireta e poderosa ao mal. Pois, nesse caso, se estaria supondo que essas belas ações só valem tanto por serem raras e que a maldade e a indiferença são forças motrizes bem mais frequentes nas ações dos homens. Essa é uma ideia de que o narrador não compartilha. O mal que existe no mundo provém quase sempre da ignorância, e a boa vontade, se não for esclarecida, pode causar tantos danos quanto a maldade. Os homens são mais bons que maus e, na verdade, a questão não é essa. Mas ignoram mais ou menos, e é a isso que se chama virtude ou vício, sendo o vício mais desesperado o da ignorância, que julga saber tudo e se autoriza, então, a matar. A alma do assassino é cega, e não há verdadeira bondade nem belo amor sem toda a clarividência possível.

É por isso que nossas equipes sanitárias, que se concretizaram graças a Tarrou, devem ser julgadas com uma satisfação objetiva. É por isso que o narrador não quer ser o propagandista por demais eloquente de uma vontade e de um heroísmo a que atribui uma importância apenas razoável. Mas continuará a ser o historiador dos corações de nossos concidadãos que a peste tornara dilacerados e exigentes.

Com efeito, os que se dedicaram às equipes sanitárias não tiveram um mérito tão grande em fazê-lo, pois sabiam que era a única coisa a fazer, e não se decidir fazê-lo é que teria sido incrível. Essas equipes ajudaram nossos concidadãos a penetrar mais na peste e persuadiram-nos, em parte, de que, uma vez que a doença existia, deviam fazer o necessário para lutar contra ela. Uma vez que a peste se tornava o dever de alguns, ela surgiu realmente como era, isto é, como o problema de todos.
A Peste, Albert Camus *

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Uma variável do Apocalipse

«... quando se encontrou diante de um supermercado. Lá dentro o aspecto não era diferente, prateleiras vazias, escaparates derrubados, pelo meio vagueavam os cegos, a maior parte deles de gatas, varrendo com as mãos o chão imundo, esperando encontrar ainda algo que se pudesse aproveitar, uma lata de conserva que tivesse resistido às pancadas com que tentaram abri-la, um pacote qualquer, do que fosse, uma batata, mesmo pisada, um naco de pão, mesmo feito pedra ...»

José Saramago, in Ensaio sobre a Cegueira
Outros links de interesse: 
- Mixórdia de Temáticas - Pingo Doce - Adquirir produtos à bruta (audio)
- Pano para Mangas - A crónica diária de João Gobern (audio)
- Ad Argumentandum - Depois da Revolta, a Tristeza (texto).

terça-feira, 1 de maio de 2012

O Porno Doce abriu-se no 1º de Maio

O Pingo Doce diz que não faz promoções pois os seus preços são sempre baixos. Hoje, fez uma promoção com objectivos claramente políticos e de classe. Fez uma demonstração de poder. E parte da classe trabalhadora curvou-se perante esse poder. Uns viram-se ameaçados para trabalharem e fizeram-no, enquanto outros trabalhadores deram a peida fazendo-se clientes. Os primeiros deviam ter tido a solidariedade dos segundos e boicotado as grandes superfícies comerciais que abriram, mas terminaram todos numa orgia de enormes bichas consumidoras.

No fundo, o Pingo Doce subornou hoje os consumidores.  Exploraram a carência e a falta de dignidade dos seus clientes. Houve quem tenha cedido perante as suas extremas necessidades, mas, também, houve muitas e longas bichas de alienados que alçaram a perna durante horas na esperteza de se venderem por uns euros. A carneirada é assim, ela quando vende o corpinho e alça a perninha pensa que está apenas a fazer uma pose bonita, sorri, e no final sai tudo fodido.

Para os Pingo Doces deste mundo os feriados são para se vergar ao consumo, à exploração, ao lucro. A seguir ao 1º de Maio vão tentar o Dia de Natal e o de Ano Novo. São insaciáveis. Se por acaso, entretanto, a malta comunista da CGTP não comer as criancinhas enquanto outros alçam o pernil, a Jerónimo Martins meterá lolitas nas caixas para elevar o grau pornográfico das coxas de perú na consoada. Estaremos então todos a trabalhar no dia 25 de Dezembro. O menino Jesus estender-se-á nas palhinhas promocionais do sempre barato Porno Doce. É um Pingo Vergonhoso.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Documentário: Donos de Portugal



«O executivo do Estado moderno não é mais do que uma comissão para administrar os negócios comuns de toda a classe burguesa»
de O Manifesto Comunista, de Karl Marx e Friedrich Engels, 1848.

terça-feira, 24 de abril de 2012

PS, PSD e CDS - os partidos da ditadura do grande capital

Da página de facebook Donos de Portugal:
Dos currículos de 115 governantes e ex-governantes dos últimos 30 anos (PS, PSD, CDS), resulta um mapa das ligações que tecem entre grupos económicos onde ocupam ou ocuparam funções dirigentes.
Para mim, vai ficando cada vez menos compreensível a surpresa que muitos ainda fazem perante expressões como "vivemos numa ditadura do grande capital", ou a referência de classe a determinados partidos com frases como "os partidos burgueses...".

O diagrama acima dá uma pista. As conclusões, tira-as tu.

Para mim, repito o seguinte:
«O executivo do Estado moderno não é mais do que uma comissão para administrar os negócios comuns de toda a classe burguesa» - Marx e Engels
A frase ganha maior dimensão quando compreendemos que os Estados são por definição ditaduras. A questão fica se queremos à frente do executivo do nosso Estado uma ditadura da maioria sobre a minoria, ou o inverso, e queremos uma ditadura da minoria sobre a maioria (tal como se sucede há 30 anos).

Só mais uma coisa: a frase é uma citação duma obra do século XIX. É incrível a quantidade de ensinamentos que desaproveitamos de antepassados nossos e que poderíamos usar para melhorar a nossa qualidade de vida. No entanto, somos bue da inteligentes, até sabemos calcular integrais triplos e livrarmo-nos da indeterminação de limites, felizmente, pois é uma cena útil para determinar o volume de transacções* durante o nosso estágio não-remunerado num dos grupos económicos acima referidos.

* ps: os números negativos vão dar jeito.