Hoje de manhã revi o primeiro episódio de Cosmos [1],
de Carl Sagan, e agora à noite o primeiro da nova versão. Como ambas as versões têm no primeiro episódio o mesmo guia geral, perdi parte da emoção que
teria caso o tivesse visto sem rever a versão de Sagan. De manhã fui
esmagado pela mensagem geral do episódio: "somos feitos de poeira
estrelar" [we are made of star stuff]. Demasiado pequeninos no tempo e
no espaço.
Mas se pequeninos nos sentimos por saber que nada mais somos que uns grãos de poeira estrelar, pessoalmente, ao ver a sonda Voyage 1
com o melhor que a espécie humana produziu simbolizada ao som dos
Blues, comovente, senti um peculiar orgulho em ser um dos biliões de
primatas pertencentes à espécie humana. São doze compassos de música
enviados para o imenso espaço que demonstram como somos poeira estrelar
bem interessante.
No geral interessa-me pouco as entrevistas com músicos de pop ou rock, a maioria delas focam-se na vida dos músicos ou no que sentem em relação ao novo material, e raramente aprofundam assuntos como o processo e técnicas de composição das músicas. Não pretendo dizer que a vida e os sentimentos do artista não tenham interesse até para se compreender a música e todo um contexto relativo à criação e a interpretação das obras, contudo é uma pena que raramente se comente a obra noutras abordagens.
Aqui está um exemplo de uma entrevista com uma diferente abordagem, semelhante àquela que sinto falta que haja mais. Penso que se torna interessante para qualquer pessoa, mesmo que não tenha formação musical, perceber como surge determinado riff de guitarra ou a escolha do compasso. Nada como meter nas mãos do compositor o instrumento de referência e fazê-lo falar.
Encruzilhada. Crossroads, [cruzamento] em inglês. Termo usado para simbolizar uma situação de decisão delicada e determinante. Voltar atrás, ao contrário de um precipício, não é solução...
Pullin' back from the precipice
Feel so small now, stars shine bright above
...mas, fica-nos igualmente mais vivo tudo o que nos rodeia. Reavalia-se o valor da vida e contempla-se o meio, por exemplo, a beleza nesta música que...
Passin' through the day, only child
Breathe a sigh, other leads apply
...ao som da guitarra que vai shoegando a angelical melodia faz um incompatível contraste tal como a situação que dá lugar à encruzilhada. Amizade, o valor em contemplação; distorcida pelas guitarras, resta decidir se chegou a hora de deixar a distorção abafar a bela melodia, o inverso, ou fazer fade out.
Raining all day, trying to reach you
Feel so helpless, can't stop counting time (but in)
Don't know why, hands (something) stealin' my heart
Graceful dives', other leads apply* (rain down from the sky) [*]
Tive o prazer de criar uma colectânea para o Cassete Pirata - anexo do blog O Companheiro Vasco - que foi publicada hoje. A selecção das músicas resultou num conjunto de faixas de álbuns de rock progressivo, ou que têm muitas influências deste género musical, editados em 2012. Mais que despertar do interesse para algumas das músicas, desejo que esta cassete seja um ponto de partida para a descoberta de algum destes álbuns.
Lista: ["nome da faixa" - banda; (álbum)]
1. "Index" - Steven Wilson; (Grace For Drowning);
2. "Drag Ropes" - Storm Corrosion; (Storm Corrosion);
3. "Wiped Out" - Archive; (With Us Until You're Dead);
4. "Insolence" - Shearwater; (Animal Joy);
5. "Water / Sand" - iLiKETRAiNS; (The Shallows);
6. "Even Less" - Porcupine Tree; (Octane Twisted);
7. "The Infant" - Kotebel; (Concerto for piano and electric ensemble);
8. "Judas Unrepentant" - Big Big Train; (English Electric (Part. One));
9. "Shadow Of The Hierophant" - Steve Hackett; (Genesis Revisited II).
Foi um grande concerto! Muito acima das minhas expectativas.
Como alguns já poderão ter lido por aqui, sou um grande fã dos Genesis na sua fase progressiva inicial e há tempos escrevi vários posts aquando a vinda dos The Muscial Box - a banda tributo oficial dos Genesis. Agora, para assistir aos G2 Definitive Genesis não tinha grandes expectativas, e a comparação entre as duas bandas tributo seria certamente em favor da primeira, pensei: mas não! São muito diferentes, de uma forma que se complementam.Enquanto os The Musical Box (TMB) são como um museu vivo em que simulam quase tudo como os originais, os G2 põe o máximo que conseguem às músicas sem as descaracterizarem, e em boa verdade, muitas das versões superam as dos TMB. Contudo, prefiro assistir aos museu vivo dos Genesis.
O concerto de hoje à noite será dedicado ao álbum ao vivo Seconds Out, enquanto o de há pouco, que foi anunciado como sendo dedicado aos álbuns da fase Peter Gabriel, afinal, não foi apenas isso que tocaram, e pelas músicas da fase Phil Collins que ouvi há instantes, garanto-vos que o espectáculo de hoje valerá cada cêntimo. É uma actuação tremenda a todos os níveis (excepto o cénico) em cima de algumas das melhores músicas alguma vez criadas. Que grande concerto!
Esta é a par com outras duas ou três bandas de rock a minha preferida. Os Genesis eram, sobretudo na fase em tinham como vocalista Peter Gabriel, absolutamente incríveis. Já outrora houve uma referência a eles neste blog (aqui). Para mim, a melhor banda de progressivo.
Esta música surge já na fase pós Peter Gabriel. É algo absolutamente mágico. O interlúdio instrumental, entre dois dos refrões cantados pelo Phil Collins, é algo maravilho e de assinalar.
Parece tudo bater certo, ficar em harmonia, em uma palavra: beleza.
No dia 6 de Março de 1975 no Dramático de Cascais o concerto dos Genesis começou assim:
Já aqui no blog fiz referência ao concerto de 75 e à volta dos The Musical Box. Deixo agora mais um testemunho do concerto em que Rael veio ter a sua catarse a Cascais em pleno PREC:
Eu estive lá, com 12 anos de idade, às cavalitas do meu irmão Armando, que teve a feliz iniciativa de me levar.
Com chaimites e polícia cá fora, tipos guedelhudos e oleosos, tal como eram as coisas em 1975, sentia-se adrenalina e ventos de mudança no ar. A malta estava ávida de coisas diferentes e de beber, até ao último trago, tudo aquilo que raramente atravessava a fronteira.
Mas este grupo era, de facto, diferente: tinha força e jorrava emoções que mexiam connosco.
Estive na segunda noite, a do Musical Box, no encore. Now, now, now, now, now... ainda me arrepio, só de pensar. Por incrível que pareça, o Peter Gabriel olhou-me, a certa altura, fixamente, por uns segundos, pois eu estava muito próximo do palco, elevado às costas do meu irmão, e deve ter pensado "o que faz este puto aqui...". Nunca esqueci essa imagem, pois tinha os olhos azuis vivos, realçados por tinta preta, na sua representação de Rael.
Essa noite marcou-me, definitivamente. Estes fulanos entraram nas nossas vidas, graças ao seu talento inigualável, e ainda hoje sou surpreendido, cada vez que ouço em qualquer disco. Por mais voltas que dê, e escuto muita coisa diferente, volto sempre às origens...
Tenho para contar aos filhos e aos netos, aliás, a minha filha já ouve Genesis.
Genesis é uma das minhas bandas favoritas, e garanto que vale a pena rever a emulação feita pelos The Musical Box. A ilusão de que são mesmo o Genesis é muito bem conseguida, caso contrário não voltaria a revê-los. Fui a quatro concertos (e meio), e do primeiro, lembro-me perfeitamente da cena que acima Carlos Sá refere: Touch me now, now, now, now, now - arrepiante -, a sombra do velho projectada no tecto... - espanto! - e assisti a algo que nunca vira antes quando o publico no final da música saltou das cadeiras como que catapultados a gritar e a aplaudir como que caídos em demência; só consigo comparar à forma como se grita e salta quando num estádio cheio se festeja o golo mais importante do nosso clube. Espero que hoje o encore volte a ser The Musical Box, tal como se sucedeu na segunda noite de 75. Se voltar a haver chaimites e copcon à entrada do novo Dramático, espero trazer aqui as fotos.
"Não existe neutralidade na canção. Tenho pensado muito nisso por causa dessa treta de nos chamarem cantores de intervenção. Chamarem-nos cantores de intervenção é uma forma de desresponsabilizar os outros que não o são. Parece que, normal é uma pessoa não intervir, não se meter “nessas coisas”. Quando qualquer ocupação do espaço social – em cima dum palco, num disco, num tempo de antena (…) – é relevante do ponto de vista da nossa relação com a comunidade. Portando, não há neutralidade nisso. Se eu ficar a cantar baboseiras, parvoíces, ou coisas completamente anódinas que contribuam para estupidificar as pessoas, etc, eu estou a intervir, sou activo na mesma, estou a dizer: «É pá, ficas quietinho, não faças nada. Tu és um escravo. Não levantes a garimpa, continua isso, nasces, morres, e continua o processo. Não faças nada.» Outros, seja a falar de amor, seja a falar das relações sociais, seja a falar de poesia – das grandes coisas da alma humana -, exprimem-se, entregam-se, questionam-se. Isso, quando passam para si e para os outros… [tem um efeito]". [*]
José Mário Branco
Lembrei-me destas palavras após de ter visto várias reportagens fazendo, hoje nos média, observações que demonstravam o desejo de separar o José Afonso músico e o José Afonso político. Não são separáveis, e a arte produzida por ele são obras maiores muito por isso. Se ele tivesse optado pela «mulher gorda a mim não me convém» talvez nem a pandeireta tivesse resistido após 25 anos. A arte deve ser politizada, e os artistas que se furtam a politizar a sua arte estão a descurar na sua cidadania, ainda por mais nos momentos difíceis que vivemos: não é por acaso que se sente o desejo de novos Zecas...
Como separar o músico do político com obras destas?!
Impossível, nem que fosse apenas porque somos, querendo ou não, sempre políticos.