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segunda-feira, 10 de março de 2014

Rumble Fish (1983)

Absurdo. Tão inútil! Caminhar sob pulsões biológicas, somente. Prazer? No quê? Simplesmente caminhar a partir de pulsões biológicas. Haverá outras? Para quê?

E quando surge cor? Fugaz.

(Filme na íntegra aqui)

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Salt of the Earth (1953)

Escreveu o António Santos no kontra korrente assim sobre o filme:
“Como posso começar a minha história que não tem começo? O meu nome é Esperanza, Esperanza Quintero. Sou a mulher de um mineiro. Esta é a nossa casa. A casa não é nossa. Mas as flores… as flores são nossas. Esta é a minha aldeia. Quando eu era uma criança, chamava-se São Marcos. Os “anglos” mudaram o nome para Zinc Town. Zinc Town, Novo México. As nossas raízes neste lugar são profundas. Mais profundas que os pinheiros, mais profundas que a mina”. Assim começa O Sal da Terra, que esteve banido nos Estados Unidos até aos anos 60. Todos os envolvidos na sua produção foram adicionados à infame lista negra do cinema norte-americano; a protagonista foi deportada para o México e o argumentista passou mais de um ano na prisão. Porquê? Porque este filme é perigoso por ser simultaneamente tão belo e tão corajoso. A luta dos mineiros norte-americanos vista de uma perspectiva de classe em que as mulheres e os imigrantes são líderes e iguais.
O filme está agora em domínio público e pode ser visto na integra aqui:

domingo, 7 de julho de 2013

Novecento (1976)

Novecento (ou 1900) é um grande filme. Grande, em todos os sentidos. É constituído por 5 horas (dividido em duas partes) que são uma verdadeira lição.

Quanto hoje em Portugal temos - nunca como agora foi tão claro - um governo composto por fascistas, quando hoje a fascização do regime se desenvolve a olhos vistos para garantir as taxas de exploração em prol da alta finança - e muitos sem ainda darem por isso -, este filme é uma ferramenta de estudo de visionamento obrigatório.

Um filme que ajuda a perceber o passado, a situar-nos no presente e a prever e lutar pelo nosso futuro colectivo.



Escreveu António Santos no kontra korrente assim:
1900 é inigualável. Os campos da Emília-Romanha são a tela para a metáfora acabada do que foi o século XX, onde dois rapazes e duas classes sociais crescem e aprendem, separados por interesses inconciliáveis. Cada fotografia deste filme é um quadro repleto de beleza; todas as actuações, de Gérard Depardieu a Robert de Niro, são brilhantes; a música, de Ennio Morricone, é sublime. 1900 fala sobre a génese do fascismo, a vida dos que trabalham e a luta pelo socialismo na linguagem comum de toda a humanidade: o amor, o ódio, a compaixão e a solidariedade.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Synecdoche, New York (2008) - 10

Vi este filme pela segunda vez há pouco. Da primeira, há poucos meses atrás, a pretensão de escrever um post sobre ele tornou-se impossível por haver demasiadas camadas de compreensão para descortinar neste filme, o que tornou a sua intelectualização em palavras um acto que ultrapassou completamente as minhas capacidades.
Clicar aqui para ouvir a banda sonora
O enredo é complexo, e essa complexidade vai entropicamente crescendo ao longo do filme, às vezes demasiado, aparentemente, mas não poderia ser de outra forma quando o objectivo é compreender o ser humano, ir mesmo a fundo nessa busca, e ainda reproduzir artisticamente toda a sua riqueza comportamental, das emoções aos sentimentos, com ênfase nos medos e desejos humanos. No filme, o protagonista deseja ir além do seu criador: alguém com génio capaz de sintetizar numa obra cinematográfica a natureza humana, - argumentista que já antes vinha abordando e reflectindo sobre o assunto nos seus anteriores filmes como Eternal Sunshine of the Spotless Mind, Adaptation, Human Nature e Being John Malkovich. Não me lembro de ver noutro filme uma busca tão abrangente acerca do comportamento humano, descendo tão fundo aos seus sentimentos como ao pensamentos; talvez um título: Magnólia - filme onde também participa Philip Seymour Hoffman.
Caden analisando papeis escritos com pensamentos íntimos de várias pessoas
Charlie Kaufman explora como nunca o fez a dialéctica que há entre a aparência e a essência, forma e conteúdo, enquanto se deixa emaranhar numa teia de percepções da realidade por parte dos personagens em que a realidade subjectiva e a concreta se torna difusa também para o espectador, buscando por respostas que, em vez de as descortinar e encontrar harmonia, gera cada vez mais e mais perguntas. Quanto mais são as questões novas, maior é a tensão e a ansiedade. O protagonista é reflexo maior no filme disto: psicótico com terríveis falhas de auto-percepção que cria uma megalómana obra de teatro com o obsessivo objectivo de investigar a essência de cada ser humano; nessa sua luta por fazer sentido, e pela sua existência, termina por se admitir (ou talvez resignar-se) e compreender que é como todos os outros seres humanos; o protagonista - argumentista e encenador - é também todos os personagens e essas pessoas são também o protagonista, isto é, uma sinédoque.

É um dos mais impressionantes filmes que vi, sobretudo pelo peculiar estilo de escrita. Sem dúvida um dos meus favoritos.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

The Man Who Wasn't There - 10

Detesto os irmão Coen. Tudo começou numa tarde algures no século XXI enquanto via Fargo... É uma longa história.

Em The Man Who Wasn't There o senhor Meursault* nunca foi morfologicamente tão parecido com o seu criador, A. Camus, nem nunca teve tão idêntica reencarnação como na pele do lacónico Ed Crane - o protagonista do filme dos irmãos Coen.

Um enredo brilhante, imprevisível, peculiar, que se encaixa perfeitamente com a fotografia e no ritmo da narrativa, integrando várias componentes noir, sendo coerente e consistente do início ao fim. O absurdo está na obra nas mais variadas formas e camadas, desde sonhos, visões e descrições de fenómenos paranormais, como o absurdo camusiano, onde o protagonista do filme atravessa com indiferença pelos acontecimentos quotidianos tal como, caminhar, cortar o cabelo, fechar um fecho dum vestido ou assassinar uma pessoa. A morte atravessa toda a obra, contudo, ao contrário de outras em que isso faz reflectir e reflexionar a vida, neste caso, a incidência torna mais claro o seu absurdo e a sua falta de sentido.

Um dos elementos noir do filme é Birdy, um bela e inocente mulher, interpretada por Scarlett Johansson, responsável pelos momentos que mais enfaticamente se mostra a ambivalência do protagonista e da vida. Um desses momentos é o encanto com que Ed Crane ouve Birdy tocar piano, e a posterior revelação de que ela tocava música sem alma, de forma mecânica, tão desapaixonadamente como a forma como o personagem principal vive.

Nunca antes Ed Crane se entusiasmou e se motivou fosse pelo que fosse, revelou que só se casou porque a mulher assim o decidiu, mas, no final, aceitando com naturalidade a arbitrariedade da justiça e da morte, obrigado a exprimir-se, o lacónico Ed Crane confessa que após a morte tem o interesse em falar a quem em vida não disse aquilo de que não há palavras para se poder dizer, em particular à mulher. Que significa isso quanto aos sentimentos que tinha com ela? Não sei, nada sei, às vezes quanto mais observamos menos compreendemos.

A inexistência dessas palavras talvez seja aquilo que me impediu de escrever ultimamente aqui no blog, mas o certo é que The Man Who Wasn't There é a partir de hoje um dos meus filmes de eleição, e digo: os irmãos Coen são génios.


*personagem principal do livro O Estrangeiro.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

The Hours - 9

The Hours é um excelente filme. É-o pela história com enredo complexo e bem construído, pelas actuações dos actores, pelo tema... A morte, sempre presente no filme, intensifica a importância e a reflexão perante todos os pormenores no quotidiano dos personagens. A Virginia Woolf (Nicole Kidman) é-lhe perguntado:
- No teu livro, dizes que alguém tem de morrer. Porquê?
- Alguém tem de morrer para que possamos valorizar mais a vida. É pelo contraste.
The Hours (trailler)
Não sei bem que palavras usar para dizer que este assunto é um dos que mais me fascina: o suicídio. A valorização feita pelas pessoas à vida coexiste com esta curiosa acção que é a decisão de terminar com a própria vida. Tudo me interessa, inclusivamente o estados psíquicos que levam às horas parecerem horas e horas...

Felizmente temos a capacidade de podermos terminar com a nossa própria vida. Pessoalmente, poucas são as coisas que mais me assustam, do que imaginar-me impossibilitado a nível motor de me matar caso queira. O suicídio talvez seja o último reduto da dignidade perante uma ausência de qualidade de vida e, nesse caso, uma capacidade fundamental de libertação individual. Mas não sei bem que palavras usar.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

O Medo e os Contos de Fadas

Há uns anos passei uma passagem de ano novo na Amareleja, em Serpa, em casa de um amigo. Uma estrada pouco caminhada dava acesso à central fotovoltaica, mas após a Central a estrada continuava servindo um propósito que me ficou um mistério. Espanha, ou um portal intergaláctico, imagino que um deles fosse a razão da estrada continuar. Nunca saberemos!
The Village (2004) - 10
Essa estrada, para o grupo de amigos em que estava inserido, era só a referência para não nos perdermos ao nos intrometermos pelo bosque adentro... Longas árvores. Rochedos! Barulhos e cheiros estranhos. Coelhos. Um sofa! Silvas. Frigoríficos. Pássaros. Sacos de plástico e pneus. O rio, poças de água e mais silvas por todo o lado. Humidade e um esquentador! Muito mobiliário! Cobras e piu-pius a cantar. Caminhamos e caminhamos... Foi uma caminhada (mais ou menos) deslumbrante pela floresta!

O nosso amigo, que ali tem casa, contou então uma história que se conta acerca daqueles caminhos por onde andávamos. Infelizmente, não me recordo como ela era exactamente, mas salvo erro, envolvia crianças que quando ali iam brincar, desapareciam, após serem atraídos pelo choro de um bebé que terá, há muitos anos, ali ficado após sua mãe naqueles caminhos ter ido desengravidar! Talvez tenha introduzido elementos novos à história, ou então corrompi-a quase totalmente, mas estou certo que mantive aquele que foi para mim o motivo, pelo qual, aquele conto vive de boca em boca até hoje. Esse motivo é meter medo às crianças para ali não irem brincar, mantendo-as assim afastadas e a salvo dos perigos que aquela zona florestal esconde.
Ver Trailler
Os contos têm uma função importante no desenvolvimento das crianças, alertando-as, pelo inconsciente, ajudando-as a defenderem de perigos que ainda não têm capacidade para assimilar. Vejamos, por exemplo, uma função do conto do Capuchinho Vermelho. No conto...
...o Capuchinho Vermelho chega a casa da avó, mas quando lá chega já antes um comunista lhe tinha na cama comido a avó. Tem uma conversa muito apelativa na cama para crianças mas extremamente enfadonha para um adulto e zás! O comunista come o Capuchinho Vermelho! Um caçador entra...
Peço desculpa, não era um comunista, mas um lobo; enfim, é um pormenor "sem" importância. 
Um dos filmes mais interessantes que vi ultimamente
Não devemos ter pudor nem receio em contar esta desagradável estória. É um conto que tem tantas interpretações como possíveis funções para o desenvolvimento de uma criança. Afinal, alguém, no seu perfeito juízo se viraria para uma criança de 5 anos para lhe explicar, em tom grave, que ela deve ter cuidado com os predadores sexuais?! Ou confiaria num simples aviso de que os lobos são perigosos?

O medo é fundamental para a sobrevivência. Afasta ou acautela-nos dos perigos. Isto dos contos, como a estória da Almeraleja, é o medo a ser explorado em boa causa, contudo, quantas "estórias da carochinha" não nos entram pelos ouvidos e, constantemente, pela televisão? Não são só as crianças a tomarem estórias como verdadeiras e a deixarem-se manipular pelo medo.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

"É possível amar e odiar ao mesmo tempo"

Mas será muito difícil compreender que é possível isto?

La belle personne (2008) - 4
O estudo da Filosofia é importantíssimo. Ela não é, ao contrário que muitas vezes oiço, uma mera curiosidade e algo sem utilidade na prática. Quem diz isso não compreende que é o próprio exercício prático que refina e/ou comprova a justeza das ideias, da filosofia.

Um simples curioso nas variadas formas do pensamento certamente já leu sobre filosofias orientais como o hinduísmo, taoismo, ou conceitos como Yin-Yang, mesmo que ignorem a filosofia europeia contemporânea como, por exemplo, a dialéctica hegeliana e marxista. Todas estas concepções do pensamento têm pontos em comum, em particular, o conflito e complementaridade entre opostos. Vejamos, por exemplo, como descreve o Wikipedia sobre Yin-Yang:

O yin-yang são dois conceitos do taoísmo, que expõem a dualidade de tudo o que existe no universo. Descreve as duas forças fundamentais opostas e complementares, que se encontram em todas as coisas. O "yin" é o princípio feminino, a terra, a passividade, escuridão, e absorção. O "yang" é o princípio masculino, o céu, a luz, atividade, e penetração.
Quem possui o conhecimento disto sabe da profunda utilidade que a filosofia tem nas mais vulgares acções do dia-a-dia, tanto na análise muito mais rápida e melhor da realidade, como, por fim, uma superior assertividade na própria acção quotidiana de transformação do mundo. Logo, quem tem este conhecimento, de que o mundo é dialéctico, não se surpreende que uma pessoa ame e odeie em simultâneo outra, pois é essa a natureza de todas as coisas, uma contradição de opostos, nem sempre evidente, mas sempre lá.

sábado, 29 de dezembro de 2012

Detachment (2011) - 9

Um dos melhores filmes que vi este ano. Filme simples sem histrionismos artísticos e aparentemente só mais um filme. Mas não é só mais um filme. A história não é original nem propriamente imprevisível, mas subtilmente toca em muitas e importantes áreas do que é ser-se humano.

O sistema de ensino público, decadente, no pior que os EUA apresentam, é o palco desta passagem sem grande sentido de vida de algumas esquecidas personagens pelo mundo. A desesperança e indiferença é quase omnipresente, tal como, sem qualquer ironia, uma insustentada esperança também o é, e é-o indispensável às mais pequenas acções do dia-a-dia, em que os personagens, mergulhados numa profunda alienação, participam numa luta individual pelo não corromper das suas almas numa sociedade de almas corrompidas. Não estou a fazer um jogo de palavras contraditórias, estou a caracterizar a confusão e interacção de pensamentos e acontecimentos opostos que ocorrem no filme. É uma luta pessoal, de cada personagem, pela sobrevivência e consciência - com auto-conhecimento -, e a capacidade de se emanciparem a partir de estímulos literários e afectivos provenientes de uma improvável escola pública, que embora decadente, permite, quase como fruto do acaso, a evolução pessoal de um conjunto de jovens cuja autonomia como seres pensantes ficar-se-ia, pelas condições do seu meio, remetidas ao conformismo, presos para sempre nas suas cabeças, estrebuchando através de uma rebeldia contra o vácuo, mas felizmente, libertam-se...

Henry Barthes - o professor de Inglês -, magnificamente interpretado por Adrien Brody, faz da disciplina que lecciona, da Língua, uma ferramenta de emancipação e de (auto)-consciencialização para os alunos, exactamente o contrário que vivi com todos os meus "professores" de Português. Mas, estes alunos do Sr. Barthes libertam-se mesmo? Surge-me essa dúvida com a leitura de Poe no final que...

DURING the whole of a dull, dark, and soundless day in the autumn of the year, when the clouds hung oppressively low in the heavens, had been passing alone, on horseback, through a singularly dreary tract of country; and at length found myself, as the shades of the evening drew on, within view of the melancholy House of Usher. I know not how it was -- but, with the first glimpse of the building, a sense of insufferable gloom pervaded my spirit. (...) I looked upon simple landscape of the domain --upon the bleak walls -- (...) and upon a few white trunks of decayed trees --with an utter depression of soul (...). There was an iciness, a sinking, a sickening of the heart...

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

La science des rêves (2006) - 8

Isto não é um blog de cinema. Nem percebo da coisa. Também não faço por parecer que percebo. O mais estranho é que pouco ou nada falei de música neste blog que é algo de que gosto bem mais e percebo bem mais. Definitivamente, isto é um blog de alienação intervalados de momentos em que compenso com a merda da realidade. Este é um filme de esquizofrénico quase como este blog. É um filme de alienação, de sonho, mas sonho alienado.

Deu-me um imenso prazer ver este filme. Foi uma valente dose de fantástico, imaginação, delírio, fuga da realidade. Quero é que o filho da puta do Primeiro Ministro se foda. Preciso disto: imaginar unicórnios a correr pelos prados com fraldas metidas para não borrar os lençóis. Ok, nem tudo é perfeito no filme, tive de aturar mais uma história de amor. Que lindo casalinho!!! Por acaso, só para me aborrecer, até gostei.

Tão distante está a realidade concreta da realidade desejada!; que assim não dá para levar a mal quem se remete à fantasia, à negação do concreto, compensando seus aparelhos neurológicos através de sonhos e delírios auto-realizantes. Neurose! Viva à neurose! Não levo a mal? Levo levo, pois se alguém me repetir que a felicidade vem é de dentro, enfio-lhe um supositório com princípio activo de Ary dos Santos com campânulas à Terry Gilliam que a fome, desemprego e os desabrigados desaparecem por magia só para lhes dar razão. Não é campânulas, mas cápsulas, o corrector autográfico disto é que se passou ao ver unicórnios em fraldas; ele nunca tinha visto fraldas. Que filme! Gostei.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Perfect Sense (2011) - 6

Como fazer de uma boa ideia para um enredo, um bom filme? É que no início de Perfect Sense (trailer) tudo parecia demasiado parvo e sem consistência. O filme resume-se a uma relação amorosa num mundo pré-apocalíptico rumando para um previsível fim. E é só! Se é que ter juntamente uma relação amorosa e o fim pudesse ser só e nada mais que apenas isso: só. Só?

Eva Green a contracenar com um gajo qualquer lá atrás
Talvez não seja um bom filme, mas vale a pena vê-lo. Ou talvez não valha e tenha, somente, sido uma noite apropriada para eu desfrutar deste filme. No fundo, por muito complexo que possa ser o Fim, como assunto que remete para o sentido da vida, o filme é e faz-se simples:

Eva Green a contracenar com uma folha castanha
a vida é um sopro... Boa noite.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

The Grapes of Wrath - 9

Sendo um filme produzido por um grande estúdio de Hollywood surpreendeu-me a sensibilidade demonstrada em determinado pormenor em prol da classe trabalhadora. É certo que há muitos filmes que mostram as condições de vida dos trabalhadores, mesmo explicitamente, mas neste caso há um pormenor que normalmente só quem adere à luta proletária percebe: a aprendizagem; a aprendizagem requerida (e necessária) no processo de consciencialização acerca da sociedade em que se vive e na consequente luta pela transformação dessa sociedade.

Tom Joad, personagem principal, é politicamente ingénuo, mas vítima das contradições do capitalismo num momento histórico particularmente difícil e violento à vida humana - a Grande Depressão -, vive com os seus um conjunto de experiências que lhe permite ganhar rapidamente uma consciência de classe e incita-o para acção para lutar por justiça social.  

O filme tem uma narrativa cujo ritmo pode não agradar a um espectador mais impaciente, imediatista, mas é extremamente rico em conteúdo, contudo, mais que poder ver e ouvir, é preciso que o espectador saiba reparar. Durante o filme várias temáticas são explicita ou implicitamente abordadas, como por exemplo a natureza de classe das leis e das autoridades (sempre em favor do capital e da propriedade privada), a importância das greves e da união dos trabalhadores, o desenvolvimento da corrupção moral dos homens perante o medo do desemprego e ameaça do patrão, ameaça essa que também incluía o desalojamento, pois os trabalhadores e suas famílias ficavam frequentemente a habitar em casebres emprestados pelos seus patrões, e aborda assuntos como a jorna, a migração... É um filme, que além de uma lição para o personagem principal, é-o também para o espectador.

Quando mais tarde li A Mãe, de Gorki, o filme vinha-me constantemente à cabeça. Além de haver em ambas as obras uma mãe preocupada com a vida do filho, há também um paralelismo na aprendizagem que os personagens desenvolvem, obtendo progressivamente cada vez mais conhecimentos que lhes permitem transformar a sociedade, e em ambas as obras, isso acontecia sobretudo na prática, durante essa luta transformadora. Em Gorki, não me surpreenderia tal sensibilidade em reparar na existência desse processo de aprendizagem, mas num filme de Hollywood que ganha dois Óscares, é estranho. Claro, a introdução do tema da aprendizagem no filme dever-se-á muito ao livro de John Steinbeck do qual ele tem origem - livro que ainda não li.

As Vinhas da Ira é um filme em que o personagem principal é um operário em construção, chama-se Tom Joad como se poderia chamar Joe Hill, o seu nome cantado ou não, é como um espectro que ronda onde quer que haja injustiça e alguém que a combata. Como disse Tom Joad:
Andarei por aí no escuro. Estarei em toda a parte para onde quer que olhem. Onde houver uma luta para que os famintos possam comer, estarei lá. Onde quer que haja um polícia a espancar alguém, estarei lá. Estarei nos gritos das pessoas quando se zangam. Estarei nos risos das crianças quando têm fome e as chamam para jantar. E quando as pessoas comem aquilo que cultivam, e vivem nas casas que constroem. Eu estarei lá, também.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Linhas de Wellington (2012) - 7; Atonement (2007) - 8

A guerra nisto não muda: será sempre uma inimaginável tragédia.

Escusado pensar após um filme que se pode compreender como é uma guerra. «Pois é, é assim, a guerra!!» dizem-me baixinho no meio das Linhas de Wellington. Sorri incomodado, mas censurei-me, não quis incomodar explicando que aquilo era um eufemismo da guerra. Talentosamente o realizador soube como evitar chocar grosseiramente o espectador perante o esborrachar de um bebé contra uma parede. Napoleão não apareceu.

É um bom filme, ao contrário de todos os outros onde Soraia Chaves também faz de puta. Aqui, novamente, a prostituição foi tom eufemístico. Isto não é uma crítica negativa, é realmente um bom filme, ou por outras palavras: eu gostei.

Devo estar numa fase de filmes de guerra (ou com guerra). E de eufemismos. Hoje, foi a vez de ver o filme Atonement, de 2007, fabricado pelo Império Britânico*, onde a meio de uma bela história de amor, surge a guerra, onde se tenta mostrar, sem ferir o espectador, que a guerra é... a guerra. Hitler não apareceu.

vai constipar-se
É um excelente filme. Destacou-se, para mim, a bem elaborada e original história, a cor, e a actriz. Há um cuidado com a fotografia extraordinário, não só no sentido de bons planos, mas sobretudo como era dinâmica e expressiva a mudança das cores e luz. Quanto ao destaque que fiz à actriz, não interessa agora o caso, até porque teria de recorrer a muito boa adjectivação para não cair eu dentro de um eufemismo e afogar-me.

Não quero que pensei que estou a ser irónico quando digo que ambos os filmes tentam mostrar que a guerra é a guerra. Eles tentam, mas contudo, dentro dos limites daquilo que a maioria consegue suportar. Aborrece-me é que alguém pense que aquilo é uma boa representação de como é a guerra. Algo que penso ser inimaginável.

É também curioso expressões como "o senhor é muito humano", significando que o sujeito é um amor de gente. Que será então as violações, as torturas, as matanças, a terra queimada, senão também muito humano?

Talvez me esteja a preparar para apreciar essa humanidade, e ver um filme que me parece tentar mais honestamente retratar a guerra - será?! -, chama-se Idi i smotri (Come and See). Só pelo trailer, decidi que antes de o visionar irei comer só uma saladinha para evitar ficar muito nauseado.

Não se admirem se, quando voltar aqui a escrever, esteja com sintomas de stress pós-traumático. Agora, vou ali sonhar que me afogo no eufemismo daquela tal actriz. Boa noite! - que nenhum cogumelo a transforme a noite em dia e me acorde. (adenda das 11:30: a actriz não apareceu!)

*a autora do livro foi premiada com uma coisa com o nome Commander of the Order of British Empire!!

domingo, 4 de novembro de 2012

Masculin féminin: 15 faits précis (1966) - 6


Bonjour! Confesso que durante quase todo o filme só pensava "mas por que estou eu ainda a ver esta merda?!", mas vi-o até ao fim. Sem me despertar grande emoção lá fui aturando o pedante idealismo político do personagem masculino, e a frivolidade egocêntrica da personagem feminina. O filme não parecia deixar-me grandes marcas, contudo, pensando na possibilidade de escrever aqui um post, pus-me a pensar, e, enquanto preparava algo para comer, olhava com olhar estúpido para um barulho cuja causa não conseguia detectar, ou na casa-de-banho a apreciar a vida, dei por mim a concluir que, afinal, o filme era interessante! Ele apresenta por intermédio de quotidianas acções do dia-a-dia um conjunto largo de temas importantes da vida: é uma obra de filosofia. E é-o de forma mais profunda do que me apercebi durante o seu visionamento, e, em boa verdade, só depois, quando estava sentado na cerâmica da salle de bain é que soltei a criatividade e cheguei às mais interessantes interpretações do filme.

Muito gostaria aqui de expor acerca do idealismo político do Paul, e da frivolidade da Madeleine. Mas, ficar-me-ei por revelar que senti (o que não significa que o seja realmente) que o filme é datado, e que vivemos tempos diferentes. Ao meu pensamento estava constantemente a ideia de que aquela geração vivia uma fase de emancipação, enquanto hoje vivemos numa fase de cada vez maior opressão, rumando até ao fascismo.

Li entretanto esta excelente análise à obra, e recomendo-a.
O filme por ser visto na integra e legendado, aqui.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Howl (2010) - 6

É interessante como o filme está montado em volta do poema Uivo (Howl) de Allen Ginsberg. Sem que seja um filme que me tenha entusiasmando muito, o poema vai ganhando intensidade durante a obra, e por fim, o filme acaba por ser inclusivamente inspirador.

Apesar de saber que nos EUA casos de censura houve pelo crime de obscenidade (!), não me deixou de surpreender o julgamento, cujos argumentos e provas (!) eram baseados na necessidade e pertinência do uso pelo artista de determinados termos termos e imagens. Metem-me um certo nojo estas bestas pudicas que tentam negar-se na sua própria natureza humana e se amedrontam perante o seu reflexo na arte... lascívia, lascívia, lascívia, é o "pecado" destes ascetas que fica por libertar num uivo.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Submarine (2010) - 7


Oliver Tate é um puto porreiro. Ele é consequência do casamento de dois estóicos que copularam uma vez à meia luz num quarto sem pó. É, apesar disso, um rapaz surpreendentemente saudável. Chegado à adolescência, a sua moral pequeno-burguesa tem o primeiro desafio ao gozar com a gorda da escola para chamar a atenção de uma miúda. Essa miúda, vestida com a cor do pecado é, segundo o próprio Oliver Tate, socialista. Ela usa um casaco vermelho que faria dela o coelho do País das Maravilhas. Ela é o coelho do Submarino. É na verdade um coelho amarelo.

Oliver Tate sonha acordado, apaixona-se, livra-se do estoicismo das sua figura paterna e materna para oferecer-se a uma mulher. Engata-a no sítio mais romântico do estaleiro da zona industrial por debaixo das gruas. É uma imagem a milhas de distância dos miúdos do Soeiro Pereira Gomes, da sobrevivência, do trabalho árduo. Oliver está antes em busca da felicidade ao querer largar o tédio e a sua vida cinzenta, mas confortável, e ali, à beira daquele belo rio poluído, ele apronta-se para se maçar seriamente com os fluxos hormonais de outro ser humano. Não tenham pena. É novo, é ingénuo, mas jamais inocente. Só lhe interessa que a virgem suba ao topo da oliveira e responda sim.

Oliver Tate é o personagem principal de Submarine. Um filme bonito, bem construído, divertido, diferente. A banda sonora encaixa-se perfeitamente como segunda narração. A primeira, é proferida pelo próprio Oliver. O filme não é excepcional, mas é especial.

terça-feira, 13 de março de 2012

American Beauty (1999) - 10

Tem um enredo brilhante. É a crónica duma morte anunciada. O morto e os restantes personagens são dum típico bairro norte-americano. Personagens cujas pulsões libidinosas reprimidas lhes confere uma psicose digna do que é, para mim, o paradigma duma família "normal" numa sociedade capitalista. Gente de onde o tempo livre não abunda, a futilidade do ter ocupa quase por inteiro os objectivos de vida, e se vive acompanhadamente sós interagindo por ataques passivo-agressivos com quem mais gostam... alias, se habituaram a viver. Que reste a aparência do sucesso, ao menos.

O velho masoquista que se apaixona por uma menor recuperando a pica ao seu cadáver, ao ponto de se motivar e libertar dos sádicos que cativou, incluindo a frígida mulher e à vidinha casa-trabalho-casa, rejuvenesce entre as pétalas. Com ele, quase todos os personagens entram num processo incrível de catarse, que entre o ridículo e a activação de endorfinas pelo rei do imobiliário, tem o seu momento mais alto da resolução da tensão reprimida no florescer libertador duma poça de sangue.

Se não viste o filme, então não percebeste quase nada do que escrevi. Se viste, então é diferente, mas também não terás compreendido muito, imagino. Eu que o vi, e isto escrevi, também não percebo muito bem, mas menos ainda percebo quem não gostou do filme. Devem ser pessoas com saúde metal demasiado saudáveis para estarem vivas. Precisam talvez de se apaixonar por uma loira que faça chover pétalas. Vejam o filme, pois a Beleza está nestas pequenas coisas.